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As Olimpíadas e o meio ambiente

Às vésperas dos Jogos Olímpicos, o governador interino do estado do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, decreta estado de calamidade pública, tendo em vista a situação financeira. Foram anunciados cortes em diversos programas sociais que podem atingir 1,4 bilhão de reais – valor insuficiente para reduzir o déficit de 19 bilhões de reais, resultado do descontrole nos gastos públicos e queda na receita dos royalties do petróleo.

A época para a falência financeira do estado é a pior possível, já que a cidade de Rio de Janeiro está às vésperas de sediar o mais importante evento esportivo mundial: os XXXI Jogos Olímpicos. A Olimpíada deverá ocorrer entre 5 e 21 de agosto de 2016 e são esperados cerca de 480 mil visitantes. Para receber esta afluência a prefeitura, o estado e o governo federal realizaram várias obras de infraestrutura, além de preparar as instalações para a realização dos jogos e a acomodação dos atletas participantes.

Quando a cidade apresentou sua candidatura para sediar os Jogos Olímpicos em 2009, um dossiê estimava os investimentos necessários em 28,8 bilhões de reais, divididos da seguinte maneira: 5,6 bilhões de reais destinados à construção do Parque Olímpico e 23,2 bilhões para obras relacionadas ao transporte público. A mais recente estimativa de custos, de agosto de 2015, alcançou 39,1 bilhões de reais devido, segundo o Comitê Olímpico Brasileiro, ao aumento do número de projetos, compra de equipamentos adicionais e inclusão de obras que não haviam sido previstas de início.

Apesar do grande volume de obras realizadas, inclusive de saneamento, a poluição das águas é, sem dúvida, o maior problema desta Olimpíada. Constantemente, a imprensa local e internacional tem publicado informações sobre as duvidosas condições de limpeza das águas onde serão realizados esportes aquáticos como remo (Lagoa Rodrigo de Freitas) e vela (área da Baía de Guanabara). Permanece o fato de que grande parte dos rios que deságua na baía de Guanabara ainda recebe grande volume de esgoto doméstico e, em alguns casos, industrial. Com a expansão urbana da cidade do Rio de Janeiro desde o século XIX, estes rios se transformaram em receptores de efluentes e lixo, que são carregados para dentro da baía.

Quando do início das obras em 2010, o Comitê Olímpico Brasileiro disse que a baía estaria saneada em até 80% para receber a Olimpíada. No final de 2015 o então governador Pezão informou que o percentual de tratamento dos esgotos, que era de 17%, deveria chegar aos 49% até a realização da Olimpíada. Estimativas mais recentes, segundo o jornal eletrônico “Rio on Watch” (http://rioonwatch.org.br/?p=19084), aumentam este percentual para 65%. Nas últimas semanas algumas obras de saneamento ainda foram entregues, mas o problema de poluição das águas persistirá mesmo durante o evento. A poluição não se limita à lagoa Rodrigo de Freitas e à baía da Guanabara. Na zona Oeste, perto de onde está localizado o Parque dos Atletas, grande parte das lagoas também está comprometida por efluentes domésticos.

A situação do Rio de Janeiro reflete a maneira como o Estado tem tratado a questão do saneamento desde sempre no Brasil. Num evento desta monta, quando aos olhos do mundo o país poderia mostrar uma imagem de comprometimento com o meio ambiente, o que apresentaremos é incapacidade de gestão e descaso com a natureza.

Foto: https://www.behance.net/gallery/889218/Rio-2016

Ricardo Ernesto Rose
Consultor, jornalista e autor, com especialização em gestão ambiental e sociologia. Graduado e pós-graduado em filosofia. Desde 1992 atua nos setores de meio ambiente e energia na área de marketing de tecnologias, trabalhando para instituições internacionais. Atualmente é consultor em inteligência de mercado no setor de sustentabilidade. É editor dos blogues “Da natureza e da cultura” e “Considerações oportunas”. Se site profissional é: www.ricardorose.com.br

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Escrito por Ricardo Rose

Ricardo Ernesto Rose, jornalista, graduado em filosofia e pós-graduado em gestão ambiental e sociologia. Desde 1992 atua nos setores de meio ambiente e energia na área de marketing de tecnologias.

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